Assistimos
todos os dias na TV e outros meios de comunicação, tragédias e tragédias que
nos assustam, deixa-nos pasmos, tamanha a pobreza da cultura, da falta de
solidariedade, da crueldade das informações que estamos veiculando. Uma das
mais recentes me deixou inicialmente surpreso, e depois, ao repensar o tamanho
do prejuízo à sociedade, senti como se me espetassem com uma espada afiada, como
se o fato estivesse acontecendo comigo; uma garota de 15 anos foi presa por
suspeita de furto e colocada numa cela juntamente com 20 marmanjos numa cidade
chamada Abaetetuba, próxima de Belém, no Pará.
Ora,
o fato em si, já é estarrecedor; não se admite em hipótese alguma que qualquer
policial, por menor formação que tenha, mesmo sendo um bandido disfarçado,
tenha a coragem, a petulância de colocar uma mulher numa cela junto com tantos
homens, muito menos uma menor, incapaz de se defender. Não conheço, não quero
conhecer o soldado, o cabo, o sargento, o delegado, a governadora e todos os
envolvidos, que durante 24 dias, pasmem, 24 dias, mantiveram uma garota junto
com tantos homens e nada fizeram.
Certamente
muita coisa aconteceu neste período com a menina. E não adianta alguém falar
que foi só um preso que abusou da garota, como já andam dizendo. È claro que
todos dela se aproveitaram e devemos muito ao telefonema anônimo que colocou
tamanha crueldade exposta, nos dando a oportunidade de conhecer mais uma vez a
flagrante fragilidade do sistema carcerário brasileiro.
Notícias
como essa, são rapidamente veiculadas em todos os meios de comunicação,
primeiro porque estamos transitando por um momento histórico da democracia
brasileira, e doa a quem doer, o que está errado tem que ser mostrado. Tais
notícias acabam dando ao Brasil a oportunidade de ser observado pelo resto do
mundo, e muitos países questionam e nos ajudam a aprimorar na busca da real
democracia. Numa ditadura, como a dos anos 60, noticia como essa jamais seria
veiculada, e a realidade ficava muito distante do que realmente acontecia. Muitos
simplesmente sumiram quando tentaram questionar.
Não
tenho dúvidas que serão tomadas as providências cabíveis para punir os
responsáveis por tamanha barbárie. Entretanto, está claro neste caso, a
responsabilidade daqueles ligados direta e indiretamente com a prisão da menor,
que, apesar do conhecimento das penalidades previstas para crimes dessa
natureza, ignorou o fato, assumindo as responsabilidades cabíveis, o que
esperamos sejam também assumidas quando se apontar todos os culpados.
A
pergunta é: o que fazer para assegurar que tais fatos não mais ocorram em
qualquer lugar do Brasil. O momento é de reflexão e precisamos questionar tudo,
as prisões, quem as dirige, a formação de cada um e vigiar, vigiar para que os
profissionais selecionados para lidar com os presos sejam sempre os melhores,
de tal forma a evitar tamanhos desmandos na carceragem brasileira. Para que
isso se torne realidade, há a necessidade urgente de pensar grande quando
falamos em segurança.
Mais investimentos nas penitenciarias, mais treinamento e
qualificação de todos os profissionais envolvidos.
A
menina de 15 anos, filha de dona Francicléia Felix Alves, certamente não será mais
a mesma. Abaetetuba, que quer dizer “lugar cheio de gente boa” também não. A
menina, sob proteção policial e da governadora Ana Julia Carepa (PT), vai
estudar e poderá ser alguém na vida, podendo ter um futuro bem diferente
daquele que iniciou ao prostitui-se e ser chamada de “Cartucheira”. Abaetetuba
por sua vez, poderá melhorar a sua imagem de cidade rota do tráfico
internacional de drogas, devido a sua proximidade com as Guianas, Suriname e
Europa. Para que coisas boas aconteçam,
muita coisa ruim tem que passar sob a ponte. É a vida.
Obs: Matéria publicada em nov/2011
Geraldo Ferreira da Paixão –
engenheiro eletricista e eletrônico – pós graduando em Docência do Ensino
Superior pela UNILEST – Coronel Fabriciano - MG.
e-mail: geraldoferreiradapaixao@gmail.com